Dirceu: o velho tarado

26/11/2010 11:42

Dirceu: o velho tarado

Maria1 cuida Marília2

Com teu olhar prateado3

Que por perto anda o pastor4

Dirceu5

Velho tarado

 

Maria olha Marília

Pasta alegre o manso gado6

Entre as vacas o bravo touro

Dirceu

Velho tarado

 

Maria cuida Marília

Com Tomás tome cuidado

Ele anda inconfidente7

Dirceu

Velho tarado

 

 

Maria escuta Marília8

Da razão iluminado9

O que claro tenho dito10

Dirceu

Velho tarado11

 

1 e 2- Marília , na realidade, é Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, 17 anos, noiva do poeta Tomás A. Gonzaga, autor do poema “ Marília de Dirceu”, longo poema lírico do Arcadismo brasileiro, onde se podem encontrar como acabamos de constatar, dados biográficos.

3- Este Verso retoma um fato freqüente no poema, onde a formosura de Marília é louvada com insistência por meio dos tradicionais galanteios sem incorrer nos excessos sentimentais dois futuros românticos.

4- No Arcadismo, por um comum acordo, os poetas aclamam-se pastores, embora suas rotinas pouco tivessem a ver com essa prática. Gonzaga, por exemplo, era ouvidor em Vila Rica, e pouco sabia de ovelhas, gado, etc... O que idealizavam era a simplicidade, a paz que essa vid oferecia.

5- Pseudônimo de Tomás A. Gonzaga.

6-  Verso de T. A. Gonzaga onde se pode notar o clima pastoril, a natureza bucólica ( lócus amoenus) que envolve as cenas de amor.

7- Gonzaga foi preso e depois degredado, por fazer parte do grupo de inconfidentes.

8- Assim como no primeiro verso de cada estrofe desta composição, no poema de Gonzaga, Marília também é alertada não dos perigos que corre, é lógico, mas o poeta ], sob influência do iluminismo, vê na poesia um mecanismo para a transmissão de conhecimento e , por isso, ensina e aconselha, o que levou os críticos a apontarem o didatismo presente no poema

 9- O iluminismo francês exerceu extrema influência filosófica sobre o Arcadismo, dando a ele o que tem de racional, equilibrado e objetivo.

10- A linguagem no Arcadismo é simples e clara, longe do torneios e da complexidade barroca.

11- Note que os versos finais de cada estrofe se repetem, cumprindo o papel de Refrão, algo, em função da musicalidade e da popularidade, muito usado por Gonzaga em “ Marília de Dirceu”.



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